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quarta-feira, 24 de maio de 2017

Maria, auxiliadora dos cristãos: Como surgiu a devoção à Nossa Senhora Auxiliadora



Ao longo da história da nossa Igreja a Mãe de Deus foi e continua a ser venerada sob diversos títulos. E a história de cada título de Nossa Senhora enriquece as virtudes da mãe de Jesus e engrandece a glória de nosso Deus. Quero partilhar a história do título “auxiliadora” dado a virgem Maria, para que conhecendo um pouco mais a história da veneração da Mãe Deus possamos amá-la com amor ainda maior e glorificar a Deus e ao seu Filho Jesus que nos confiou a sua mãe a Igreja na cruz (Jo 19,27).

A invocação de Nossa Senhora Auxiliadora tem suas origens em 1571. Naquela época o império Otomano que já havia se expandido ao longo do mar mediterrâneo desejava invadir a Europa. Temendo a incursão dos mulçumanos contra a Europa cristã o papa Pio V  invocou o auxílio de Nossa Senhora, obtendo êxito em segurar o avanço islâmico o Santo Padre com profunda gratidão acrescentou a Nossa Senhora o título de “auxiliadora dos cristãos” às ladainhas loretanas. Porém, quem instituiu a festa de Nossa Senhora Auxiliadora foi o papa Pio VII em 1816.

O imperador Napoleão I, no séc XIX, foi excomungado pelo papa Pio VII por ameaçar invadir os estados pontifícios. O imperador francês sequestrou o papa que ficou preso por cinco anos. O Santo Padre recorreu a intercessão da Virgem Santíssima prometendo coroar solenemente a imagem de Nossa Senhora de Savona tão logo ficasse livre do cativeiro. A pressão popular levou Napoleão a libertar o papa que voltou a Savona e cumpriu sua promessa. No dia 24 de Maio foi instituída a festa de Nossa Senhora Auxiliadora, a data fixada é a mesma do retorno triunfal do papa à Roma.

A devoção à Nossa Senhora Auxiliadora é difundida no mundo inteiro pela família salesiana, congregação religiosa fundada por Dom Bosco. São João Bosco exercia especial devoção pela auxiliadora dos cristãos pedindo sua intercessão para defender a obra salesiana frente as dificuldades políticas de seu tempo. Dom Bosco com a ajuda de Santa Domingas Mazzarello fundou as filhas de Maria Auxiliadora para que a nova congregação fosse um monumento vivo de gratidão a Mãe de Deus. Em 1862 as aparições de Maria Auxiliadora na cidade de Spoleto marcaram o despertar da devoção mariana na piedade popular italiana. Nesse mesmo ano Dom Bosco iniciou a construção, em Turim, de um santuário, que foi dedicado a Nossa Senhora, auxílio dos cristãos.

Dom Bosco tinha especial devoção pela Virgem Santíssima, devoção ensinada a ele ainda criança por sua mãe. O santo ensinou a família salesiana a invocar Nossa Senhora sob o título de Auxiliadora, devoção esta que ganhou muita força com a ajuda de Dom Bosco. O amor de São João Bosco pela Virgem Auxiliadora era tão conhecido que com este título ela era conhecida como a “Virgem de Dom Bosco”. Dizia Dom Bosco: “A festa de Maria Auxiliadora deve ser o prelúdio da festa eterna que deveremos celebrar todos juntos um dia no Paraíso”.

Oração a Nossa Senhora Auxiliadora, Protetora do Lar
Santíssima Virgem Maria a quem Deus constituiu Auxiliadora dos Cristãos,
nós vos escolhemos como Senhora e Protetora desta casa.
Dignai-vos mostrar aqui Vosso auxílio poderoso.
Preservai esta casa de todo perigo: do incêndio, da inundação, do raio, das tempestades,
dos ladrões, dos malfeitores, da guerra e de todas as outras calamidades que conheceis.
Abençoai, protegei, defendei, guardai como coisa vossa as pessoas que vivem nesta casa.
Sobretudo concedei-lhes a graça mais importante,
a de viverem sempre na amizade de Deus, evitando o pecado.
Dai-lhes a fé que tivestes na Palavra de Deus, e o amor que nutristes para com Vosso Filho Jesus
e para com todos aqueles pelos quais Ele morreu na cruz.
Maria, Auxílio dos Cristãos, rogai por todos que moram nesta casa que Vos foi consagrada.
Amém.

domingo, 14 de maio de 2017

História de uma comunidade: Nossa Senhora Auxiliadora do Campo Alegre

História de uma comunidade: Nossa Senhora Auxiliadora do Campo Alegre
Por Brener Alexandre[1]

O nosso povo é um povo que conta histórias e estórias, a narrativa faz parte da constituição fundamental da nossa cultura. Para explicar a realidade, para ensinar e transmitir valores. Poderíamos ter começado com um “era uma vez”, com um “a muito tempo atrás”, mas eu gostaria de iniciar essa história com um início bastante famoso para nós cristãos católicos. Quero começar como se inicia as narrativas bíblicas, como começa o livro do Atos dos Apóstolos. Porque houve um dia em que Deus suscitou homens e mulheres de bem tocando-lhes o espírito para que formassem em sua vizinhança  uma assembleia reunida.

Naqueles dias, isto é, a 47 anos atrás (1970) Deus inspirou o seu povo e fez nascer no coração de homens e mulheres do bairro Campo Alegre o desejo de se reunir para celebrar o domingo do Senhor, agradecer e louvar a Deus por dar-lhes desejo ardente de servi-lo e de estar com Ele formando nova comunidade de fé.

Havia desde o princípio o lote remanescente do loteamento do nascente bairro Campo Alegre. Dona Luiza Barbosa, dona Iris (do Sr. Américo) e Sr. Raimundo (de dona Rosa) realizaram a limpeza do lote fazendo a capina. O Sr. Raimundo introduziu a cruz marcando o espaço sagrado. E num galpão improvisado o povo de Deus que habitava o conjunto do Campo Alegre se reunia para fazer suas orações em comunidade.

Padre Valdir, era àquela época o vigário paroquial e trouxe de Sabará duas imagens para que a nova comunidade escolhesse o seu padroeiro. Uma das imagens era a do Sagrado Coração de Jesus e a outra a de Maria Auxiliadora. Dona Luiza escolheu a imagem da Virgem Auxiliadora, confiando Maria Santíssima como patrona da comunidade. A Igreja crescia como comunidade de fé graças a Deus que presenteou o seu povo com homens e mulheres de boa vontade. Homens como os senhores Propécio, Raimundo, Américo, e mulheres como dona Iris, Luiza, Pompea, Ana Cunha, Terezinha Barbosa, Conceição Pimenta, Graça e muitas outras pessoas que até hoje contribuem para manutenção da vida comunitária na Igreja de Maria Auxiliadora.

O livro do Atos dos Apóstolos nunca foi concluído. A história das primeiras comunidades cristãs ficou aberta no tempo e nós continuamos a escrevê-la com as nossas vidas como seguidores do Caminho, da Verdade e da Vida. Também a história da comunidade Nossa Senhora Auxiliadora continua a ser escrita na memória e no coração dos membros da comunidade. Deus já chamou dona Luiza e tantos outros membros da comunidade para junto de si, mas chamou muitos outros também pelo nome a continuar o que eles começaram. Alguns como dona Pompea, dona Terezinha e senhor Raimundo que transmitiram aos seus filhos o cuidado para com a comunidade que seus pais começaram. “Tradição” palavra de origem latina que significa entregar, confiar, transmitir. A história da Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora do campo Alegre continua a ser contada na vida de cada um de seus membros dos mais velhos aos mais novos, por pais, mães, avós, filhos, netos. Contada por Antônio, Jorge e Rosely, por Rogéria, Rosana e Edite. Por Nelson, Carlos e Vanessa, Laura, Victor, Sara, Luisa e Anésia. E por todos que embelezam com a sua fé, esperança e caridade alegrando o coração de Deus com sua presença em cada celebração da nossa fé, nas missas, nas pastorais e movimentos que formam de forma visível o corpo invisível do Cristo ressuscitado.



[1] Paroquiano da Paróquia Cristo Operário e membro da comunidade Nossa Senhora Auxiliadora. Texto originalmente publicado no jornal da paróquia Cristo Operário edição de maio/2017

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Enfeite de Natal

Outro dia eu estava acessando as redes sociais e vi uma imagem com uma frase que dizia: “Não precisa encher sua casa de pisca-pisca, quem nasceu nesse dia foi Jesus Cristo, não Thomas Edison”. Apesar de achar a frase engraçada (sobre certo sentido) ela revela ao menos duas coisas: Primeiro, que os adornos de natal no mais das vezes parecem bastar a si mesmos para fazer o natal. E segundo, que as pessoas de modo geral interpretam alguns excessos de forma muito negativa (pautada pelo primeiro item).  Não vou entrar no mérito de explicar o que significa cada item usado na decoração de natal, o objetivo do meu texto não é esse. Quero falar de algo mais sério e que tem chamado a minha atenção como cristão há algum tempo, quero falar do que nos justifica como cristãos, vale dizer, do que  faz com que sejamos reconhecidos como bons cristãos e, para isso vou dissertar sobre a prática natalina de enfeitar a casa e sinalizar o que esse gesto deve significar de fato para os cristãos.

A luz certamente é um eufemismo para cristianismo, digo isso porque tanto os evangelhos, como as cartas apostólicas e todo o magistério da Igreja emprega “Luz” como o sinal da presença de Deus e como missão fundamental do povo de Deus. A luz é um símbolo e um sinal tão presente na vida cristã que sempre há uma vela acesa nas celebrações e em festas solenes (como a benção do fogo novo no sábado santo), no cristianismo luz e fogo estão em perfeita harmonia. Entretanto, a vida moderna nos brindou com a invenção da lâmpada elétrica e hoje podemos enfeitar nossas casas com várias luzinhas multicoloridas, o famoso pisca-pisca, de todos os tipos e de várias cores o pisca embeleza as janelas, árvores de natal e presépio na casa de muitos cristãos. O pisca imita o brilho das estrelas, o brilho da estrela, sim, daquela estrela que guiou os magos como conta a tradição. Quando colocamos o pisca na janela, no presépio, ou no pinheiro de natal é como se desejássemos externalizar a luz de Cristo que brilha em nós, quando ligar o pisca-pisca lembre-se daquela noite escura, o céu estrelado, a noite em que o menino-Deus veio ao mundo.
Quando ligá-lo imagine o coro dos anjos cantando diante dos pastores espantados com o milagre que estava acontecendo ali bem diante de seus olhos.  A luz do pisca-pisca é a luz do Cristo que você deve buscar refletir para os teus irmãos.

O presépio esconde um mistério. E que mistério esconde o presépio? Como vocês já sabem, presumo, o presépio é uma devoção franciscana ao mistério da Encarnação do Senhor. São Francisco de Assis captou por meio do seu modo de vida despojado e pobre, em sua humildade, aquilo que o nascimento de Jesus também comporta de mais extraordinário. O presépio é a imagem do despojamento, da simplicidade Daquele que é o mais importante e o centro de tudo (o alfa e o ômega como está escrito no Apocalipse). O presépio manifesta na humildade a grandeza de Deus. Um Deus peregrino que o evangelista João disse que “se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). Embora as traduções brasileiras substituam “armar sua tenda” por “habitar” (no sentido de fazer morada), a ênfase que o escritor sagrado quer dar é a condição passageira em que se encontra o filho de Deus, “O sol que vem do alto nos visitar” como canta Zacarias no evangelho de Lucas (Cf. Lc 1,78-79). O judeus também armaram tendas enquanto viviam no deserto guiados para Canaã, a terra prometida ( há até uma festa importante para lembrar esse fato, a festa das tendas ou da dedicação Cf. Jo 7,2) e, por isso, Deus sempre lembra o povo de que “Vocês foram peregrinos no deserto e escravos no Egito (Cf. Dt 5,15 e Ef 2,19).

Em uma missa do advento ao ouvir o padre refletindo sobre o evangelho daquele dia me veio a mente que o nascimento de Jesus é a sua primeira kenosis, o seu primeiro esvaziamento de si. E o presépio nos transporta esse mistério e nos comunica em sua simplicidade um convite a abnegação e a renuncia de si. O presépio é um convite ao esvaziamento. Que nós possamos nos esvaziar em Cristo realizando no dia-a-dia a nossa kenosis e levando na simplicidade dos nossos gestos o menino-Deus que nasce em nós quando nos entregamos ao seu mistério de amor.
Assim, como o ostensório é belo e adornado por que é guardião de Jesus eucarístico, a nossa casa deve ser transformada em um grande ostensório e ostentar com a consciência cristã que nos interpela a luz e a simplicidade de Jesus menino cuja memória do nascimento celebramos todos os anos.
Ostentamos, portanto, o próprio Deus, é ele que desejos comunicar aos outros quando iluminamos nossas janelas com inúmeros pisca-piscas transformando-a no belo céu da noite do nascimento do Senhor.  Ostentamos a grandeza de Deus quando ao montar o presépio tomamos o cuidado de embelezá-lo de forma que a humildade obscureça a vaidade.
A luz é eufemismo para cristianismo e a simplicidade é a sua realidade mais bela.


Brener Alexandre 21/12/2015

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ágape

Estava pensando nesta manhã de quinta-feira santa sobre o ágape que os cristãos latinos chamavam caritatis, pensando no paradoxo que essa forma de amor exprime quando dispersa o que deve permanecer unido e une o que está aparentemente disperso.
Falo por experiência própria, afinal, escolhi me afastar da minha comunidade de fé para não “fechar as portas do reino” (MT 23,13) porque não queria que o meu zelo fosse pedra de tropeço para os outros.  Do mesmo modo, que nos afastamos de alguém que amamos para não escandalizá-la com o nosso afeto, posto que às vezes esse afeto mesmo bonito nos é causa de queda.

A fé cristã é um paradoxo maravilhoso, suas exigências transbordam do mistério de Deus e só pode ser perscrutado porque quem não se contenta em apenas molhar os pés, mas que de fato deseja ir “para as águas mais profundas”.  De fato, essa forma de amor especial que coloca o outro no centro valorizando-o e que exige de nós que deixemos de lado nossos projetos particulares para se colocar à serviço ainda que esse serviço seja à renúncia de nossas ambições mais corriqueiras como a fama e o prestígio na vida social. Com efeito, esse amor que São Paulo apresenta muito bem como aquela que: “é paciente, prestativa, não possui soberba e não procura o próprio interesse, não se irrita e não guarda ressentimento; e ainda não se contenta com a injustiça e se agrada da verdade.” (1Cor 13, 4-6) Ora, somos imperfeitos na caridade, nesse abster-se de nós mesmos para se pôr à serviço do outro. Mas somos chamados constantemente a procurar a perfeição na caridade, pois, a caridade é graça que abunda do mistério de Deus.

Somos convidados ao silêncio obsequioso que evita o julgamento dos irmãos (e peço perdão pelas vezes que julguei quando deveria me calar).
Somos convidados a se afastar quando já não podemos contribuir para o crescimento dos irmãos (e peço perdão por meu fracasso quando Deus confiou seus talentos e eu não fui capaz de dobrá-los).
Somos convidados perdoar a covardia e falta de sinceridade dos irmãos que não nos compreenderam, dos irmãos que nos julgaram e que Deus confiou a nós. (e peço perdão pelas vezes que fui covarde e quando optei pela omissão seja para me proteger seja para proteger os outros e ainda peço perdão pela falta de paciência e pelo juízo precipitado para com os meus irmãos).
Somos convidados a dispersos nos unir e unidos nos dispersarmos para que a palavra de Deus feita semente frutifique como é da sua vontade. Que cada um semeie com os dons que Deus lhe deu ofertando a si mesmo e doando-se como o Cristo se doou e continua a se doar por nós.

Reconheço que muitas vezes deixo a desejar como Cristão, que muitas vezes falho com o evangelho, e por isso, peço a Deus que me ensine a ser mais caridoso servindo aos irmãos com inteligência (dom que me foi dado), com coragem (força que me impele a agir) e justiça (pois para Deus a caridade e a justiça se encontram abraçadas).

Não sou parte de vós, mas sou um como vós. Não somos iguais, mas somos semelhantes.

O paradoxo da caridade reside no mistério da paixão de modo peculiar porque Deus sendo Todo poderoso não usou de força para salvar, mas usou de amor: paciente e prestativo que tudo desculpa e tudo suporta para nos salvar e esperou de nós uma resposta livre e sincera de acolhimento desse amor que nos tira do centro sem nos deslocar dele para que “amassemos uns aos outros como ele nos amou” (Jo 13,34).
Não nos esqueçamos do que nos une a videira, do qual somos parte e da unidade à que somos chamados símbolo perpétuo da nossa fé.






quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal do Senhor: Do mistério da encarnação



Sabemos que o dia 25 de Dezembro é uma data simbólica e que não é a data histórica do nascimento de Jesus.
No entanto, o verdadeiro sentido do natal do Senhor não está na data em si, mas no significado que o nascimento de Jesus tem para nós, cristãos, tendo em mente as promessas de Deus feitas ao povo judeu.
Quando nos voltamos para os evangelhos, é possível, perceber como Matheus, Lucas e João abordam as circunstâncias do nascimento ou como traduzem o mistério da encarnação do Senhor.
Celebramos no natal o cumprimento de uma promessa; promessa feita ao povo escolhido e que pela misericórdia de Deus se estendeu a toda humanidade.
Quando celebramos o natal do Senhor estamos comemorando o desejo de Deus de ficar bem próximo de nós, como é dito na liturgia: “Vivendo conosco no Cristo e falando conosco por meio dele”. Com efeito, Jesus, que em hebraico significa Deus salva é também Emanuel: Deus conosco.
O mistério da encarnação consiste então, no desejo de Deus de salvar e de entrar em nossas vidas.
Como foi cantado por Zacarias: “Graças ao misericordioso coração de nosso Deus, pelo qual nos visita o astro nascente vindo do alto, para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, para guiar nossos passos no caminho da paz.” (Lc 1,78-79)

Jesus é a fonte de luz que ilumina toda criatura, a luz verdadeira (Jo 1,9) fonte da verdadeira vida.

O mistério da encarnação deve ser compreendido à luz do sentido mesmo do nascimento de Jesus, uma compreensão que nunca se esgota, por ser mistério, mas sempre se renova como o nascer do sol.
Meditar o mistério natalino é, portanto, compreender a grandeza de sentido que tem o nascimento de Jesus, “a palavra que se fez carne e que arma sua tenda entre nós” (Jo 1,14) Jesus é Deus que se faz peregrino como nós, quer revelar o verdadeiro sentido da vida se fazendo caminho para a nossa trajetória rumo a Jerusalém celeste, é a verdade que almeja ser comunicada a toda humanidade.
O Deus peregrino “luz da luz” armou sua tenda entre nós para revelar no seu rosto humano a sua face divina e santa para que sejamos santos como ele é santo e possamos gozar a verdadeira felicidade.

Feliz Natal!


domingo, 31 de março de 2013

Catequese de São Paulo aos Coríntios 1Cor 15,1.12-19


"Lembro- vos, irmãos, o evangelho que vos anunciei, que recebestes, no qual permaneceis firmes, e pelo qual sois salvos, se o guardais como vo-lo anunciei; doutro modo, teríeis acreditado em vão. (1) Ora, se se proclama que Cristo Ressucitou dos mortos (literalmente "levantou-se dentre os mortos" o verbo que normalmete usado nos textos neo testamentário para ressureição é "Anastásis" que significa literalmente levantar, subir. A escatologia judaica nos remete o fato de que quando morremos descemos ao Sheol que seria a mansão dos mortos como nós proferimos no Credo, portanto ressucitar significa literalmente sair do sheol, isto é, subir da região dos mortos para a vida. Outro verbo correlato e sinônimo de anastásis é o verbo que significa levantar no sentido de despertar como quando acordamos do sono, pois no Sheol as almas dormem. por isso São Paulo se refere ao mortos como aqueles que adormeceram), como podem alguns dentre vós dizer que não há ressureição dos mortos? (12) Se não há ressureição dos mortos, também Cristo não ressucitou. (13) E, se Cristo não ressucitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé.(14) Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressucitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. (15) Pois, se os mortos não ressucitam, também Cristo não ressuscitou.(16) E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais em vossos pecados. (17) Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo, estão perdidos. (18) Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. (19)” (São Paulo aos Coríntios durante o pentecostes. Cf. I Cor 15,1.12-19.
Feliz Páscoa a Todos que a alegria do Ressucitado seja a nossa Alegria que jamais nos esqueçamos do fundamento da nossa Fé!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Comentário à parábola do pai misericordioso

Durante a Quaresma tenho meditado sobre o perdão como um dos pilares fundamentais da ética cristã proposta por nosso Salvador. No entanto ao longo das semanas meditando as leituras do antigo testamento tenho percebido que o perdão não é uma novidade cristã, mas que já está presente no judaísmo e no profetismo antigo.

O perdão é tão importante para os nossos irmãos judeus que eles dedicam um dia do ano para celebrá-lo. O Yom Kipur, o dia do perdão compõe o calendário judeu e faz parte da liturgia judaica. Se por um lado os judeus dedicam um dia para celebrar o perdão, os cristãos o celebram todos os dias na missa através do ato penitencial e no sacramento da reconciliação.

Momento no qual reconhecemos nossas limitações e nossa condição de pecador e buscamos através do perdão a cura das nossas misérias para então se esvaziando do pecado possamos nos preencher da santidade oferecida na sagrada Eucaristia. Para tanto, tenho meditado algumas passagens sobre o perdão no Evangelho, aproveitando o caráter penitencial da Quaresma.

Comecei com a oração do Pai-nosso e agora com a parábola do filho Pródigo buscarei demonstrar a pedagogia do perdão proposta por nosso Salvador. Seguirei o mesmo esquema do Pai-nosso postarei o texto e o comentarei em partes ou em linhas enfatizando as várias camadas que a parábola apresenta.

Parábola do pai misericordioso (Lc15,1-3.11-32).

“Todos os publicanos e pecadores se aproximavam dele para ouvi-lo. E os fariseus e os escribas murmuravam entre si: ‘ Este homem recebe os pecadores e come com eles. ’ Então Jesus contou-lhe esta parábola: ‘Um homem tinha dois filhos. E o mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a minha parte da herança (ousía).’ O pai dividiu os bens (bíos) entre eles. E depois de alguns dias o filho mais novo ajuntou tudo o que possuía e partiu para um país distante e dissipou (dieskorpizen) a sua herança levando uma vida dissoluta (zoon asotós).

Nesta primeira parte da narrativa temos de um lado o filho mais novo pedindo o que é seu por direito da herança (ousía) paterna. É muito interessante como Lucas sendo grego conhecia muito bem o tesouro linguístico que a língua grega oferece. Primeiro coloca na boca do filho o pedido pela herança (ousía) termo tão consagrado na filosofia entendido no seu sentido mais comum como o patrimônio familiar, ou patrimônio construído no seio de uma tradição familiar. Depois Lucas escreve: ‘O pai dividiu os bens (bíon) em grego literalmente o evangelista escreve separou entre eles o viver (tón bíon).

Bíos é vida assim como zoé, mas o seu significado é diferente de zoé . Enquanto zoé é vida no sentido de ser dotado de movimento (expressa o sentido da palavra latina "anima" quando falamos dos animais, isto é de seres vivos porque estes se movimentam e tem capacidade de sentir), bíos é vida no sentido de "o que engloba o viver", aquilo que torna a vida possível, bíos é também o modo de viver de alguém ( Desse modo a biologia estuda a vida não apenas no sentido de estudar os animais, mas todas as "formas de vida", falamos em bioma como o lugar ou habitat de animais e plantas).

Então, ousía e bíos significam no primeiro momento a herança que Deus deixa aos homens através da aliança e o modo de vida que Deus oferece aqueles que se aliam a ele. No entanto, o filho mais novo pega o que recebeu, viaja para um país distante e lá dissipa (dieskorpizen) e leva uma vida dissoluta (zoon asotós).’

Note-se no vocábulo dieskorpizen, um verbo composto "dia" mais "skorpizo". Skorpizo significa dispersar, separar e a preposição "dia" também indica quando associada ao verbo a intenção de dividir alguma coisa acompanhando da expressão: vida dissoluta (zoon asotós) o vocábulo asotós significa libertinagem, desordem, ou seja uma vida desregrada o fez dispersar o tesouro precioso que seu pai havia lhe transmitido. Zoon não é o modo de vida, mas o modo de conduzir a vida. Isso quer dizer aquilo que fazemos com a nossa vida, as escolhas que tomamos no dia-a-dia.  Essa vida vivida em em asotía, isto é, em libertinagem também é sem salvação, pois etimologicamente asotós é composto de alfa privativo (por exemplo, em "apatia" que significa literalmente sem paixão, indiferente) mais o verbo sozo que significa salvar, conservar algo.

 Os pecadores que Jesus recebe são aqueles que receberam a herança e a dissiparam. Depois Jesus continua: ‘Depois que dissipou tudo o que possuía e houve uma grande fome naquele país, ele começou a passar privações. Foi então, empregar-se com um dos homens daquela região, que o mandou cuidar dos porcos. E desejava matar a fome com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.’ Esse momento da parábola é fantástico porque trata da condição em que o pecado nos coloca.

O pecado, com efeito, tira a nossa dignidade, nos reduz a uma condição de miséria plena. Grandes filósofos e teólogos como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino compreenderam muito bem que o pecado tira de nós a liberdade, nos legando uma tal condição em que não podemos escolher o modo de viver. Desse modo, ficamos presos a necessidade de satisfação dos desejos e somos incapazes de sair do circulo vicioso que o pecado nos impõe.

Todavia, o modo como isto é contado na parábola é assombroso. Primeiro, porque o jovem faminto busca um trabalho para ter dinheiro para se sustentar. Observemos que a vida de luxo-ria que ele levava não reflete a boa vida que ele tinha junto do pai e do irmão mais velho. O bem viver não consiste como já era dito por filósofos não cristãos em viver satisfazendo os seus prazeres (sexuais, gastronômicos e estéticos). Mas, em viver com justeza, e ou harmonia com o universo, o que os filósofos e teólogos cristão substituirão por viver na graça de Deus e em busca de Deus.

Depois, o filho mais novo é empregado por um homem daquele país e tem o encargo de tratar dos porcos. Todo judeu sabia e Jesus não era uma exceção a regra, que o porco era um animal impuro e, portanto não podia ser comido. Porém, imaginem aqueles fariseus e escribas, publicanos e pecadores ouvindo de Jesus que aquele jovem estava com tanta fome que queria comer do que era dado aos porcos. Se nós hoje em dia que consumimos carne de porco não podemos sequer pensar no que é dado para estes animais, imagina um judeu? Sobretudo um fariseu que conhecia a lei e a tinha bordado nas faixas de suas vestes, para externalizar que as conhecia, que evitava a impureza e o pecado.

A parábola é muito bem construída. Tomando as tradições e costumes do povo judeu de modo a propor uma visão da condição humana. A parábola mostra o retrato daquele que cai e se torna escravo do pecado.

Mas eis que de repente: ‘Voltando a si disse: quantos empregados de meu pai têm pão com fartura e eu passando fome. Vou-me embora para a casa do meu pai e dizer a ele: ‘ Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno (axios) de ser chamado seu filho. Trata-me como um dos teus empregados.’ Esse voltar a si ( eis eauton elthon) é o ponto de conversão. Momento daquele "clique" mental. Quando ele reconhece que ‘não é digno (axios) de ser chamado filho começa o movimento para a liberdade, mas ainda não chegamos no perdão.
 
O jovem pensa em receber do pai o tratamento dado a um empregado. O empregado na esfera familiar da antiguidade tinha pouca ou nenhuma dignidade, era uma ferramenta animada dos proprietários (tanto a palavra grega "doulos" quanto a palavra "ancillae" exprimem a o sentido de servidão análogo ao do escravo). O pai daquele jovem tratava bem os empregados de modo que o pão era farto. O jovem então: ‘voltou para a casa do seu pai. Ainda estava longe, quando o seu pai o viu, encheu-se de compaixão, correu, lançou-se ao seu pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno (axios) de ser chamado seu filho. ’

O pai, porém,  disse aos seus servos: ‘Ide depressa, trazei a melhor túnica e vesti-o com ela, ponha-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho cevado e matai-o; comamos e festejamos, pois este meu filho estava morto (nekrós) e tornou a viver (anezesen) estava perdido (apololos) e foi encontrado (eurethé). ’ E começou a festejar.

 Chegamos a um momento importante da parábola, porque podemos imaginar a angustia do pai que no gesto de respeito, ainda que o seu filho, o mais novo, o mais inexperiente, tomando posse do seu patrimônio o dissolve. Gastar tudo o que foi construído com suor e muito trabalho. Aquele pai mesmo sabendo que o seu filho não seria sensato e mesmo assim respeita o seu desejo de receber sua herança e de partir para o mundo.

Esta é a metáfora que Jesus usa para mostrar como é a nossa relação com Deus. Deus não aponta para nós nossas limitações e confia a nós o seu patrimônio e muitas vezes achamos que sabemos o que estamos fazendo até que nos damos conta de que não somos dignos de ser chamado de filho, mas que se o pai quiser pode nos tratar como empregados.

E a atitude do Pai é emblemática, o Pai podia ter esperado o filho chegar pedir desculpas, ou mesmo passar um sermão antes do filho dizer qualquer coisa e o que o pai fez? Ele viu o seu filho tomado pela miséria e  tomado de compaixão, o pai entendeu a dor de seu filho. O pai então, corre, lança-se sobre o pescoço do rapaz e o beija, O filho pede perdão, mas o pai não quer saber, o que importa é que ele voltou! O que importa é que o filho estava ali. E o pai manda seus servos escolher a melhor veste, por um anel no dedo e sandálias nos pés e mais manda que um novilho gordo recém alimentado seja morto e que uma grande festa seja dada pela volta do jovem.

O pai que outrora estava triste e angustiado pelo filho perdido agora exclama: ‘ ele estava morto (nekrós) e voltou a viver (anezesen) estava perdido (apololos) e foi encontrado (eurethé).’ Nekrós é geralmente usado em grego pra designar o corpo morto, o cadáver.

Enquanto que o verbo anazao significa praticamente ressuscitar, ou literalmente reviver porque a preposição “ana” indica o movimento de baixo para cima e o verbo zao que deu origem ao substantivo zoé significar dotado de vida, de movimento. Apololos significa perder, aniquilar, destruir. Estar perdido é se deixar destruir, corromper pelo pecado e ser encontrado diz respeito justamente ao contato por meio da experiência salvífica que o amor incondicional de Deus oferece a cada um de nós.

No entanto, a parábola não termina aqui. A lição sobre o perdão não terminou. Jesus acabou de Mostrar que Deus não mede esforços para acolher a todos indiferente do uso que é feito do seu patrimônio, mas isso não quer dizer que Deus seja permissivo e conivente com o pecado, pelo contrário, ele acolhe, e perdoa, mas espera de nós a conversão sincera e conhece o nosso intento de mudar ou não de vida.

O filho mais velho não estava em casa naquele momento ele retorna e ouve músicas e danças, chama um dos empregados e pergunta o que está acontecendo ali o empregado lhe responde: ‘É teu irmão que voltou e teu pai matou um novilho gordo, porque o recuperou com saúde.’ Então ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai então sai e suplica que o seu filho mais velho entre. O filho mais velho responde: ‘Há tantos anos que te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos. Contudo veio este teu filho, que devorou os teus bens com prostitutas e para ele matas um novilho gordo!’ O pai responde: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. “Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois este teu irmão estava morto (nekrós) e agora vive (ezesen) estava perdido (apololos) e foi encontrado (eurethé).”

A lição sobre o perdão só termina quando o pai mostra ao irmão mais velho que a volta do irmão mais novo merece ser comemorada. O filho mais velho não havia percebido que o tempo todo o patrimônio do seu pai era de fato seu também. De fato, ele sempre estava com o seu pai. É por estar sempre junto do pai que tudo que é do pai é do filho. Mas o filho mais velho ainda não tinha entendido que o patrimônio tinha como objetivo sustentar a vida e que ainda que o filho mais novo tivesse devorado os bens com prostitutas, o que o pai queria era ter seus dois filhos perto dele, juntos e com saúde.

 A volta do filho mais novo é a metáfora da nossa conversão. Jesus faz uso desta parábola para mostrar que o desejo de Deus é sempre o de estender o seu amor a todos. Principalmente aos pecadores. Os fariseus e os escribas representados na parábola pelo filho mais velho são chamados também à mesa da liturgia do perdão. São também chamados a celebrar  e viver o desejo  que todos os homens têm de se saciar de Deus.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tradução e comentário à MT 6, 7-15 "Pai nosso"

       A liturgia católica nos permite viver ao longo do ano diversos momentos da vida de nosso salvador.
A quaresma enquanto parte desta celebração nos convida a viver através da reflexão sobre a práxis cristã. E dentro do universo de trechos bíblicos que a Igreja separou para este momento de reflexão importante para um cristianismo autêntico. Para o dia de hoje foi selecionado o trecho do evangelho de Matheus capitulo 6 versículos 7 ao 15. Neste trecho do evangelho nos é apresentado uma das versões do Pai nosso (a outra se encontra em Lc 11, 1-4).
Gostaria de propor uma releitura desta passagem em que eu não valorizo a oração do “pai nosso” enquanto oração, mas como uma ação transformada em oração. O evangelista nos apresenta uma seqüência de lições que Jesus dá ao povo sobre práticas religiosas diárias, como: Jejum, orações particulares, o exercício da caridade. (esse texto com estas lições foi a leitura do dia da quarta-feira de cinzas) Logo a seguir Jesus ensina que a oração não deve ser longa, repetitiva. “E quando for orar não fique tagarelando (battalogia) como é costume entre os outros povos. Supondo que serão atendidos por causa do seu muito falar.”(polilogia) (MT 6,7) A palavra “battalogia” tem um sentido de tagarelar, mas também pode significar gaguejar, um falar vacilante. O sentido aqui é o de falar sendo redundante repetitivo. Jesus parece até mesmo empregar um pouco de sarcasmo quando deduz que falam demais por que acham que é o número de palavras que vai garantir que a prece seja atendida. Uma vez que é a fé que move a prece a Deus e não o número de palavras.
        Jesus pede para que este gênero de oração seja evitado: “Não se assemelhem a eles, pois vosso pai bem sabe qual é a necessidade de vocês antes mesmo que o peçam”. (MT 6,8) E em seguida ensina o pai nosso como oração universal, isto significa que é uma oração que pode e deve ser feita por qualquer um que deseja se aproximar de Deus, se tornando intimo dele. A oração que Jesus nos ensinou tem dois momentos importantes que não se separam, pois se complementam e são a essência do evangelho como é muito bem dito pelo catecismo: (...) “ Depois de ter nos legado esta fórmula de oração, o Senhor acrescentou: ‘ pedi e vos será dado’ (Jo 16,24). Cada qual pode, portanto, dirigir ao céu diversas orações conforme as suas necessidades, mas começando sempre pela Oração do Senhor, que permanece a oração fundamental.” (Cf. Catecismo §2761). Não é que Jesus quer abolir o que hoje chamamos na Igreja de oração espontânea.
     Mas a oração do pai nosso traduz a vida daquele que se dispõe ao seguimento do Cristo como veremos a seguir. Jesus então diz: “Vocês devem orar deste modo: Nosso Pai que está no céus; santificado é o teu nome; Que venha o teu reino; seja feita (genétheto) a tua vontade (thélema) do mesmo modo no céu e sobre a terra.” (MT 6,9-11) Aqui temos o primeiro momento de que falei desta oração belíssima ensinada por Jesus. Primeiro o contato intimo com Deus chamando- o de Pai de todos e em seguida atribuindo justiça ao seu nome, sim justiça porque ser santo é ser justo no antigo e no novo testamento. Depois os dois pedidos importantíssimos do qual depende a segunda parte do pai nosso.
    Primeiro o desejo que se instaure o reino de Deus, isto significa um comprometimento com a sua aliança e o desejo vivo de ter Deus sempre próximo presente na nossa história caminhando conosco até a Jerusalém celeste. Mas para que o reino venha é necessário que a vontade de Deus seja realizada, esse desejo que é o de vida digna, de igualdade perante a lei (positiva que deve ser espelho da lei divina) vontade que deve começar no céu e descer por sobre toda a terra enchendo o coração humano do desejo de Deus por vida plena e sobre tudo justiça.
    E a oração continua: “O pão nosso necessário para cada dia (epiousíon) nos dá hoje; Perdoa as nossas dívidas do mesmo modo com que perdoamos aos nossos devedores; e não nos introduzas na tentação, mas no livra do mal (ponérou). (MT 6,11-13) Na segunda parte que não é menos importante que a primeira o pão necessário para cada dia (epiousíon) é a marca do que nada me falte que é necessário para que eu tenha uma vida digna. Depois as linhas que eu considero as mais importantes da oração o incentivo ao perdão, marca única do judaísmo e consagrada por Jesus no seu ministério levando ao pleno entendimento referente ao desejo de Deus expresso em Os6,6 “Quero a misericórdia e não o sacrifício” perdoar as dívidas do mesmo modo que esperamos ser perdoados por Deus, parece uma espécie de troca que fazemos com Deus esperando dele misericórdia e clemência pelos nossos pecados.
   No entanto a lógica é outra. Deus não nos deve nada e não nos julga por estar digamos assim numa posição privilegiada em relação a nós suas criaturas manchadas pelo pecado. O incentivo pelo perdão é o reconhecimento de que todo ser humano merece uma sentença justa da parte do seu próximo, uma vez que ele também erra, aceitar as limitações do outro é um desafio a vida comunitária, por isso o perdão é tão importante. E infelizmente muito difícil de ser dado as vezes. Quantas pessoas não tem dificuldade de abraçar o outro reconhecendo com ele que o pecado caminha entre nós, mas que o amor de Deus e o nosso amor pelo próximo tem que ser maior que os erros, que o pecado.
    Por isso para mim os versículos finais deste trecho selecionado são os mais importantes porque explicam a essência do cristianismo: “Pois se perdoar as faltas dos homens o Pai que está no céus também te perdoará. Mas, senão perdoar os homens, tampouco o Pai perdoará as tuas faltas.” (MT 6,14-15) Digo explicam a essência porque o perdão é a forma sublime do amor pelo outro, perdoar aquele que se arrepende do que fez é melhor modo de acolher aquele que cai. O perdão é parte importante na pedagogia cristã.
    O pai nosso é um convite a fazer da nossa vida uma oração, a oração viva prefigurada no martírio, no testemunho do sonho de salvação que Deus nos deixou por herança por meio do ministério de Jesus até a sua morte na cruz e sua ressurreição. Jesus em vários momentos cura perdoando os pecados demonstrando essa misericórdia tão cara a Deus que ele demonstra querer mais que qualquer formalismo religioso. (Cf.Os 6,6) Jesus sendo a palavra de Deus encarnada, sendo o próprio Deus com um rosto humano revelando essa mesma misericórdia para aqueles que são oprimidos pelo pecado.
    Esta é a prova de que Deus não é indiferente a nossa condição de pecador, ao contrário ele quer nos resgatar e nos ensinar a resgatar nossos irmãos que padecem também desta enfermidade que é a falta do perdão e do amor. Sem o perdão o reino de Deus e a vontade de Deus não opera, sem o perdão de Deus não há humildade que nos mostre a face amorosa do Pai. Sem o perdão faltará o pão necessário de cada dia da nossa vida. Sem o perdão o pai nosso perde o seu sentido e se torna também “battalogia”, isto é, um discurso vazio, longe da proposta de nosso salvador de sintetizar e tornar mais intimo o nosso encontro com Deus.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Prólogo Jo 1, 1-18

Texto originalmente publicado em http://breneralexadris.blogspot.com no dia 25/12/2011 por ocasião da solenidade do natal do Senhor.


Depois da espera que configura o advento. Trazer uma tradução do prólogo de São João para mim em termos de escolha de texto é como colocar a cereja no bolo. Porque o teor metafísico do prólogo não exime o texto da sua ligação já distante com o judaísmo no qual Jesus foi educado. O evangelho de João é o mais recente dos quatro evangelhos considerado canônicos. O texto foi escrito por volta do ano 90 d.c. algumas coisas chamam a atenção no texto: o primeiro é a valorização do discurso através da palavra criadora de Deus. O que é muito diferente das tradições cosmogônicas pagãs (grega, babilônia, persa entre outras). O mais fascinante é que a ação criadora da palavra é o próprio Deus criando do nada! (outra característica do judaísmo herdado pelo cristianismo). Ainda sobre a palavra a natureza trinitária não é percebida aqui, mas Jesus enquanto palavra é o próprio Deus o que além de revelar a natureza salvadora de Deus, também revela a natureza cristocêntrica da criação (uma coisa leva a outra, Deus cria, com efeito, para convidar a sua criação a eleição e à eternidade adquirida através da revelação do rosto de Deus feita pelo messias). O segundo momento é a associação da palavra com a luz. É sabido que o cristianismo enfrentava as chamadas heregias conduzidas pelos gnósticos e maniqueístas.

 E, por isso, é importante compreender esta associação da palavra com a luz, a palavra com efeito, revela e ilumina. Revela o próprio Deus por meio de sua criação, a revelação traduz o desejo de Deus de participar da vida de suas criaturas convidando-as a uma vida renovada através de uma mudança radical de valores morais, nisto consiste o verdadeiro judaísmo (pregado por Jesus) e do cristianismo enquanto rompimento com a tradição formalista do judaísmo. no meio do prólogo o evangelista introduz a missão de joão Batista como uma testemunha do projeto de Deus e do desejo de Deus de resgatar a humanidade do pecado. Nesta parte do prólogo o messias não é mais associado a palavra, mas apenas como "a luz que ilumina todos os homens" indicando o sentido próprio do messianismo judaico de trazer esperança e ser um guia para todos os povos.

No evangelho de João, ao que parece, a eleição não é mais um privilégio dos judeus que recusaram Jesus como Messias, mas a eleição se estende a todos aqueles que acolhem a luz messiânica que levanta sua tenda entre nós se fazendo carne. ao fim do prólogo o evangelista retoma o tema da palavra indicando sua encarnação e endossando a missão do messias que é fazer cumprir através da graça a lei que Deus deu por herança aos judeus através de Moisés.

Por isso escolhi o prólogo o mais filosófico e mais metafísico dos textos bíblicos que já li cercados de símbolos que demarcam a fronteira entre o judaísmo e o cristianismo, suas semelhanças e diferenças a partir da aceitação e reconhecimento de uma parte importante da herança religiosa ou da recusa em reconhecer o recebimento desta herança, isto é reconhecer Jesus como messias. Os judeus ainda o esperam e os cristãos o reconhecem e procuram viver segundo os seus ensinamentos.

 Um texto que é um divisor de doutrinas, mas que poderia ser a marca de aproximação entre as duas ainda que demarque a separação definitiva das duas tradições monoteístas mais antigas do mundo. segue a tradução:
"No princípio era a palavra e a palavra estava junto de Deus e Deus era a palavra. Esta ( a palavra) estava desde o começo junto de Deus. Tudo foi gerado através dela e nada do que foi gerado se fez separado dela.
Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha na escuridão e a escuridão não a acolheu.
Havia um homem enviado da parte de Deus e o nome dele era João. Ele veio para ser testemunha, afim de dar testemunho da luz, para que todos crêessem através dele. Ele não era a luz, mas era a testemunha da luz.
A luz era a verdadeira (luz), a qual ilumina todos os homens vindo para o mundo.
Estava no mundo e o mundo foi gerado por meio dela, e o mundo não a conheceu.
Veio para os seus e os seus não o receberam. Quanto aos que a acolheram, deu para eles o poder para se tornarem filhos de Deus, aos que creram no nome dele, os que nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas gerados de Deus.
E a palavra tornou-se carne e levantou sua tenda entre nós e ao contemplarmos a sua glória, glória que o unigênito recebe do pai,cheio de graça e verdade.
João testemunhou sobre ele dizendo em voz alta:"este era aquele do qual eu falei: o que vem depois de mim, é maior que eu, porque foi gerado antes de mim."
Porque a partir de sua plenitude todos nós também recebemos graça sobre graça.
Pois a lei nos foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.
Ninguém nunca viu Deus, apenas o unigênito de Deus. O qual estando no seio do pai nos guia para ele."

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Símbolo Cristão - Peixe (Ichthus)


Para inaugurar o novo blog apresento a tradução de um exercício do meu curso de grego antigo sobre o peixe como símbolo cristão(O blog leva o nome deste poste "Ichthus" sob o endereço "soteriologica" (discurso sobre a salvação). Os primeiros cristãos desenhavam o peixe na porta de suas casas usando - o como um código entre eles para não serem descobertos pelos seus perseguidores. Espero que gostem.

O peixe relembra o poder de Jesus nos arredores do mar da Galiléia. Tendo somente cinco pães e dois peixes repartiu-os para o povo e todos comeram. (Cf. Mc 6, 30-44).
Para os primeiros Cristãos as cinco letras da palavra "ICHTHUS" (Peixe) significa: Jesus, Cristo, Deus, Filho, Salvador.

Bibliografia

BRANDÃO, Jacyntho Lins. Maria Olívia de Quadros Saraiva. Celina Figueredo Lage. Helenika: Introdução ao grego Antigo. Belo Horizonte, Editora UFMG,2009 2°edição p.127