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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Tentação no deserto: o exercício espiritual do cristianismo primitivo para os dias atuais



No primeiro domingo da quaresma a Igreja nos convida a meditar a tentação de Jesus no deserto.
A tentação no deserto é a imagem escolhida pela Igreja para apresentar o ciclo quaresmal, porque assim como Jesus guiado pelo Espírito Santo permanece no deserto durante quarenta dias para então iniciar seu ministério profético anunciando a boa nova de Deus. A Igreja se recolhe penitente por quarenta dias para dignamente celebrar a páscoa.

Entretanto, o meu enfoque não é tanto sobre como a tentação no deserto pintado pelos evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas se tornaram o ícone da quaresma para a Igreja.
E sim a lição catequética que estes escritores sagrados nos deixaram.
Uma lição que nos ensina antropologia teológica, isto é, nos revela a natureza humana aos olhos da fé e uma ética teológica porque nos educa a agir bem conforme a fé.
Estes são os pontos que quero analisar em cada tentação proposta pelo demônio no Evangelho de Lucas e cada resposta dada por Jesus analisando o que é ensinado a cada momento.

O texto da tentação no deserto se encontra em Lc 4, 1-13 e em linhas gerais Lucas nos conta que Jesus pleno do Espírito Santo é guiado para o deserto e que lá em jejum por quarenta dias ele é tentado pelo diabo.

Vamos observar duas coisas, primeiro o lugar, um deserto, eremós em grego, o lugar vazio, a metáfora da solidão do abandono de si a si mesmo. Segundo o diabo que enquanto personificação do mal é também a causa da ruptura com a fé. Entre o deserto e o diabo há a tentação o verbo substantivado pelo evangelista é peirázo que revela que a tentação é uma experimentação, no sentido de testar, por a prova alguma coisa ou alguém.

Do ponto de vista antropológico a tentação no deserto nos ensina que a natureza humana é sujeita a alguns tópicos fundamentais como: a satisfação de desejos, vaidade e exercício do poder sobre os outros e vaidade e a pretensão de se colocar no lugar de Deus.
E do ponto de vista ético a tentação no deserto no ensina que a excelência moral é reflexo do nosso aperfeiçoamento em contato com o sagrado, descobrindo seus mistérios e neles adentrando redescobrindo a nossa relação com o mundo, conosco mesmo e com Deus.

Segundo Lucas durante quarenta dias Jesus não comeu nada e teve fome (Lc 4,2) e então o diabo lhe disse: “Se és o filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão.” (Lc 4,3)
Jesus que como professamos no símbolo dos apóstolos niceno-constantinopolitano: “é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, gerado não criado consubstancial ao Pai.”

Isto quer dizer que Jesus é Deus em tudo e também é Homem em tudo, experimentou a natureza humana e como diz São Paulo: “à nossa semelhança, ele foi provado em tudo, sem todavia pecar.” (Hb 4,15) ou seja, Jesus enquanto homem esteve sujeito a tudo o que o homem é sujeito, desejos físicos, raiva, tristeza e naquele momento com fome e com sede no deserto o diabo o põe a prova dizendo: “ você não é o filho de Deus? Então se você está com fome, transforme estas pedras em pão e se satisfaça!” Jesus é tentado a satisfazer suas vontades e colocar se a serviço de si mesmo, de se entregar as suas necessidades fundamentais, o ser humano tem fome e sede que transcende o comer e o beber.

A resposta de Jesus a proposta diabólica foi: “Está escrito: não só de pão vive o homem” (Lc 4,4)
A Resposta de Jesus não é só a resposta que o homem de fé dá para as adversidades por buscar na providência divina o consolo para suportar a tribulação que a fome ou a sede pode fazer qualquer um experimentar, mas é a resposta do homem de fé que conforma sua vontade a vontade de Deus, note-se que não é um conformar que anula a liberdade, mas uma adesão consciente de que a vida é mais que a satisfação de necessidades momentâneas.

O diabo não desiste e o leva para o alto de um monte e lhe mostra todos os reinos da terra cheios de poder e glória e os oferece a Jesus em troca de adoração (Lc 4, 5-7).
A idolatria sempre foi um problema para o povo de Deus e a idolatria nasce da necessidade humana de se autosatisfazer. O desejo por poder e glória é a falsa necessidade humana de alimentar a vaidade o culto ao diabo é um culto ao próprio homem. É isto que significa diabo, ruptura, cisão, divisão, confusão.
O símbolo, por outro lado, é aquilo que une. Veja quando citei acima símbolo da nossa fé, isto é, a profissão de fé que nos une enquanto católicos.

O diabólico, portanto, é o que nos separa de Deus. Por isso Jesus diz: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.” (MT 6,24)
O evangelista ao falar da riqueza está falando do deus da riqueza “Mamôn”.
Jesus responde: “Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto” (Lc 4,8). A recusa de Jesus a oferta feita pelo diabo é o reconhecimento de que a verdadeira natureza humana só se realiza na perfeição de Deus seguindo o raciocínio de Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em ti.” (AGOSTINHO, Confissões I, 1.)

Enquanto criado “a imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26) devemos refletir a bondade do Criador por meio da inteligência que é a marca da sua bondade.
A ação criadora de Deus é a manifestação concreta da sua bondade, e a nossa resposta a bondade de Deus é procurarmos ser tão bons quanto ele, o evangelista exorta: “sede perfeitos, assim como vosso Pai Celeste é perfeito.” (MT 5,48)
É possível notar que há um princípio ético em questão cujo fundamento está na concepção de ser humano presente na cultura judaico-cristã. Uma ética das virtudes que concebe o bem como resposta ao projeto salvifíco do nosso Criador.

Por fim a última tentação, tendo Jesus recusado as investidas do diabo, este (o diabo) o transporta para o alto do templo de Jerusalém e disse-lhe: “Se és o Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem aos teus anjos a teu respeito, para que te guardem. E ainda: E eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.” (Lc4, 9-11)


Como eu dizia acima as tentações estão inter-relacionadas e revelam a natureza humana e a sua relação com o mundo e com o próprio Deus.
Nesta tentação o diabo tenta fazer com que Jesus coloque a providência divina e a ação de Deus à prova, mas como veremos é bem mais que esta primeira impressão pode nos causar.

Veja que a primeira tentação tenta fazer com que Jesus procure satisfazer sua fome a qualquer custo, a primeira tentação revela que o homem é um ser que deseja e que é dotado de vontade. E que a vontade do homem deve ser orientada pela inteligência, esta é reflexo da inteligência de Deus que deu ordem as leis da natureza.
E a resposta de Jesus é justamente a de que não é a vontade desorientada que garante existência e vida plena ao homem.

Na segunda tentação o diabo oferece poder e tenta despertar a ganância e vaidade de Jesus oferecendo os reinos do mundo todo se ele prestasse culto a ele.
Esta revela que o desejo desorientado pela inteligência gera pensamentos irracionais, ilusões, raciocínios equivocados sobre o modo de conceber a nossa vida.

A segunda tentação nos ensina que o verdadeiro poder vem do serviço ao outro.
E não da vaidade de controlar o mundo e as pessoas a minha volta.
A resposta de Jesus é a de que reconhecendo Deus como o único digno de culto reconhecemos que todos são filhos que se colocam à serviço para a construção de um mundo melhor compreendendo que cultuar a nossa vaidade e a nossa ambição alimenta a desigualdade  e oprime o povo de Deus.

A última tentação, a terceira. Quer por Deus à prova. E mais do que por Deus à prova, quer colocar Deus ao nosso serviço invertendo a nossa relação com ele.
Todos os discursos de teologia da prosperidade e da retribuição são formas de nos atirar do pináculo do templo esperando ser amparado por anjos.
Nesta tentação o diabo quer nos fazer pensar que Deus é quem deve nos servir e não o contrário, que ele deve se moldar à nossa vontade.
E a resposta de Jesus é magnífica: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Lc 4,12)

“Não tentarás o Senhor teu Deus” é a resposta genérica que a sagrada escritura nos dá querendo nos dizer que somos muito pequenos e às vezes muito pretensiosos para achar que Deus tem de satisfazer todos os nossos caprichos.
São Paulo nos lembra: “Ele, estando na forma de Deus não usou de seu direito de ser tratado como deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como um homem abaixou-se, tornando-se obediente até a morte, à morte sobre uma cruz.” (Fl 2, 6-8)

A passagem da Tentação no deserto nos apresenta algumas disposições inerentes à natureza humana que precisam ser educadas para que o exercício do bem e a prática da justiça sejam possíveis.
A meditação da tentação de Jesus no deserto é parte dos grandes exercícios espirituais do cristianismo desde o seu início.

Como já foi falado entre o deserto e o diabo, estando a sós, em um momento de retiro pessoal cara a cara com quem somos e o que somos enfrentamos as tentações isto é todas as vontades desorientadas que nos levam a ruptura com Deus.

A meditação das tentações a forma encontrada pelos  evangelistas para ensinar aos primeiros cristãos a educar a vontade e a fazer uso da inteligência, isto é, da razão para o exercício das virtudes cristãs.
É também o exercício místico com o qual o homem cristão tem a experiência do abandono em si mesmo para descobrir o outro e Deus como o outro maior.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quaresma e Ano da Fé



Nesta quarta-feira, 13 de Fevereiro iniciamos a quaresma que dentro do grande círculo litúrgico da Igreja Católica marca os preparativos para a páscoa do Senhor.
No entanto o primeiro dia da quaresma, uma quarta-feira que não é uma quarta qualquer, mas uma quarta-feira de cinzas.
Marcado pela reflexão, penitência e oração a quarta-feira de cinzas é também o marco inicial da campanha da fraternidade promovido em todas as dioceses brasileiras encabeçada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) com a qual voltaremos nossos olhos para a juventude em clima de preparação para a grande Jornada mundial da Juventude presidida pelo Santo Padre, o Papa.

Este ano, porém, não é um ano qualquer, mas um Ano da Fé! Aberto pelo Papa Bento em Outubro do ano passado aproveitando o aniversário de 50 anos do Concílio Vaticano II e os 20 anos do Catecismo da Igreja Católica promulgado pelo Beato Papa João Paulo II.
O que é então o Ano da Fé?
A proposta do nosso Sumo Pontífice, proposta a todos os cristãos é a de que o ano da fé seja um ano em que todos “avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4), isto é, que todos mergulhem no mistério da nossa fé vivendo e celebrando a misericórdia de nosso Deus através da celebração Eucarística e de todas as atividades pastorais com as quais nos envolvemos em nossas comunidades eclesiais.
É por isso que o Santo Padre nos escreve com fervoroso zelo apostólico: “Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. Será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é ‘a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força’. Simultaneamente, esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada e refletir sobre o próprio ato com que se crê é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.” (Porta Fidei,9)
Assim como na quaresma somos convidados pelo profeta: “Rasgai os vossos corações” (Jl 2,13). O Santo Padre nos convida a redescobrir os conteúdos da fé professada e isto só é possível como ato sincero de conversão.

Uma coisa leva a outra. Com efeito, São Paulo Apóstolo é outro que nos convida a este mergulho no mistério da fé: “em nome de Cristo exercemos a função de embaixadores e por nosso intermédio é Deus mesmo que vos exorta. Em nome de Cristo suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus. Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus.” (2Cor 5,20)
O Ano da Fé é também um pedido apostólico para que nos deixemos reconciliar, para que realmente façamos uma conversão, isto é, uma mudança radical em nossas vidas acolhendo assim a graça de sermos chamados filhos de Deus.

O profeta , o apóstolo e o Santo Padre apenas reforçam as palavras de Jesus narradas pelo evangelista Marcos e que ouvimos toda quarta-feira de cinzas quando as cinzas nos são impostas pelo sacerdote ou um de seus ministros: “Convertei-vos e credes no evangelho” (Mc 1,15)
O tempo do reino de Deus chegou e somos convidados a entrar nele através da “Porta da Fé”. A conversão é um ato reflexivo pessoal que emerge na vida comunitária, nos faz perceber que buscamos o melhor e que através da profissão falada e vivenciada da fé alcançaremos o melhor juntos, isto é a santidade, pois nosso Deus também é comunidade sendo três em um só e espera de todos os cristãos uma resposta de amor e justiça, por isso, rasguemos nossos corações e com alegria entremos no reino para participarmos da ceia do Senhor, pois somos Felizes por ter recebido de Deus o convite para cear com ele.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Comentário à parábola do pai misericordioso

Durante a Quaresma tenho meditado sobre o perdão como um dos pilares fundamentais da ética cristã proposta por nosso Salvador. No entanto ao longo das semanas meditando as leituras do antigo testamento tenho percebido que o perdão não é uma novidade cristã, mas que já está presente no judaísmo e no profetismo antigo.

O perdão é tão importante para os nossos irmãos judeus que eles dedicam um dia do ano para celebrá-lo. O Yom Kipur, o dia do perdão compõe o calendário judeu e faz parte da liturgia judaica. Se por um lado os judeus dedicam um dia para celebrar o perdão, os cristãos o celebram todos os dias na missa através do ato penitencial e no sacramento da reconciliação.

Momento no qual reconhecemos nossas limitações e nossa condição de pecador e buscamos através do perdão a cura das nossas misérias para então se esvaziando do pecado possamos nos preencher da santidade oferecida na sagrada Eucaristia. Para tanto, tenho meditado algumas passagens sobre o perdão no Evangelho, aproveitando o caráter penitencial da Quaresma.

Comecei com a oração do Pai-nosso e agora com a parábola do filho Pródigo buscarei demonstrar a pedagogia do perdão proposta por nosso Salvador. Seguirei o mesmo esquema do Pai-nosso postarei o texto e o comentarei em partes ou em linhas enfatizando as várias camadas que a parábola apresenta.

Parábola do pai misericordioso (Lc15,1-3.11-32).

“Todos os publicanos e pecadores se aproximavam dele para ouvi-lo. E os fariseus e os escribas murmuravam entre si: ‘ Este homem recebe os pecadores e come com eles. ’ Então Jesus contou-lhe esta parábola: ‘Um homem tinha dois filhos. E o mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a minha parte da herança (ousía).’ O pai dividiu os bens (bíos) entre eles. E depois de alguns dias o filho mais novo ajuntou tudo o que possuía e partiu para um país distante e dissipou (dieskorpizen) a sua herança levando uma vida dissoluta (zoon asotós).

Nesta primeira parte da narrativa temos de um lado o filho mais novo pedindo o que é seu por direito da herança (ousía) paterna. É muito interessante como Lucas sendo grego conhecia muito bem o tesouro linguístico que a língua grega oferece. Primeiro coloca na boca do filho o pedido pela herança (ousía) termo tão consagrado na filosofia entendido no seu sentido mais comum como o patrimônio familiar, ou patrimônio construído no seio de uma tradição familiar. Depois Lucas escreve: ‘O pai dividiu os bens (bíon) em grego literalmente o evangelista escreve separou entre eles o viver (tón bíon).

Bíos é vida assim como zoé, mas o seu significado é diferente de zoé . Enquanto zoé é vida no sentido de ser dotado de movimento (expressa o sentido da palavra latina "anima" quando falamos dos animais, isto é de seres vivos porque estes se movimentam e tem capacidade de sentir), bíos é vida no sentido de "o que engloba o viver", aquilo que torna a vida possível, bíos é também o modo de viver de alguém ( Desse modo a biologia estuda a vida não apenas no sentido de estudar os animais, mas todas as "formas de vida", falamos em bioma como o lugar ou habitat de animais e plantas).

Então, ousía e bíos significam no primeiro momento a herança que Deus deixa aos homens através da aliança e o modo de vida que Deus oferece aqueles que se aliam a ele. No entanto, o filho mais novo pega o que recebeu, viaja para um país distante e lá dissipa (dieskorpizen) e leva uma vida dissoluta (zoon asotós).’

Note-se no vocábulo dieskorpizen, um verbo composto "dia" mais "skorpizo". Skorpizo significa dispersar, separar e a preposição "dia" também indica quando associada ao verbo a intenção de dividir alguma coisa acompanhando da expressão: vida dissoluta (zoon asotós) o vocábulo asotós significa libertinagem, desordem, ou seja uma vida desregrada o fez dispersar o tesouro precioso que seu pai havia lhe transmitido. Zoon não é o modo de vida, mas o modo de conduzir a vida. Isso quer dizer aquilo que fazemos com a nossa vida, as escolhas que tomamos no dia-a-dia.  Essa vida vivida em em asotía, isto é, em libertinagem também é sem salvação, pois etimologicamente asotós é composto de alfa privativo (por exemplo, em "apatia" que significa literalmente sem paixão, indiferente) mais o verbo sozo que significa salvar, conservar algo.

 Os pecadores que Jesus recebe são aqueles que receberam a herança e a dissiparam. Depois Jesus continua: ‘Depois que dissipou tudo o que possuía e houve uma grande fome naquele país, ele começou a passar privações. Foi então, empregar-se com um dos homens daquela região, que o mandou cuidar dos porcos. E desejava matar a fome com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.’ Esse momento da parábola é fantástico porque trata da condição em que o pecado nos coloca.

O pecado, com efeito, tira a nossa dignidade, nos reduz a uma condição de miséria plena. Grandes filósofos e teólogos como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino compreenderam muito bem que o pecado tira de nós a liberdade, nos legando uma tal condição em que não podemos escolher o modo de viver. Desse modo, ficamos presos a necessidade de satisfação dos desejos e somos incapazes de sair do circulo vicioso que o pecado nos impõe.

Todavia, o modo como isto é contado na parábola é assombroso. Primeiro, porque o jovem faminto busca um trabalho para ter dinheiro para se sustentar. Observemos que a vida de luxo-ria que ele levava não reflete a boa vida que ele tinha junto do pai e do irmão mais velho. O bem viver não consiste como já era dito por filósofos não cristãos em viver satisfazendo os seus prazeres (sexuais, gastronômicos e estéticos). Mas, em viver com justeza, e ou harmonia com o universo, o que os filósofos e teólogos cristão substituirão por viver na graça de Deus e em busca de Deus.

Depois, o filho mais novo é empregado por um homem daquele país e tem o encargo de tratar dos porcos. Todo judeu sabia e Jesus não era uma exceção a regra, que o porco era um animal impuro e, portanto não podia ser comido. Porém, imaginem aqueles fariseus e escribas, publicanos e pecadores ouvindo de Jesus que aquele jovem estava com tanta fome que queria comer do que era dado aos porcos. Se nós hoje em dia que consumimos carne de porco não podemos sequer pensar no que é dado para estes animais, imagina um judeu? Sobretudo um fariseu que conhecia a lei e a tinha bordado nas faixas de suas vestes, para externalizar que as conhecia, que evitava a impureza e o pecado.

A parábola é muito bem construída. Tomando as tradições e costumes do povo judeu de modo a propor uma visão da condição humana. A parábola mostra o retrato daquele que cai e se torna escravo do pecado.

Mas eis que de repente: ‘Voltando a si disse: quantos empregados de meu pai têm pão com fartura e eu passando fome. Vou-me embora para a casa do meu pai e dizer a ele: ‘ Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno (axios) de ser chamado seu filho. Trata-me como um dos teus empregados.’ Esse voltar a si ( eis eauton elthon) é o ponto de conversão. Momento daquele "clique" mental. Quando ele reconhece que ‘não é digno (axios) de ser chamado filho começa o movimento para a liberdade, mas ainda não chegamos no perdão.
 
O jovem pensa em receber do pai o tratamento dado a um empregado. O empregado na esfera familiar da antiguidade tinha pouca ou nenhuma dignidade, era uma ferramenta animada dos proprietários (tanto a palavra grega "doulos" quanto a palavra "ancillae" exprimem a o sentido de servidão análogo ao do escravo). O pai daquele jovem tratava bem os empregados de modo que o pão era farto. O jovem então: ‘voltou para a casa do seu pai. Ainda estava longe, quando o seu pai o viu, encheu-se de compaixão, correu, lançou-se ao seu pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno (axios) de ser chamado seu filho. ’

O pai, porém,  disse aos seus servos: ‘Ide depressa, trazei a melhor túnica e vesti-o com ela, ponha-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho cevado e matai-o; comamos e festejamos, pois este meu filho estava morto (nekrós) e tornou a viver (anezesen) estava perdido (apololos) e foi encontrado (eurethé). ’ E começou a festejar.

 Chegamos a um momento importante da parábola, porque podemos imaginar a angustia do pai que no gesto de respeito, ainda que o seu filho, o mais novo, o mais inexperiente, tomando posse do seu patrimônio o dissolve. Gastar tudo o que foi construído com suor e muito trabalho. Aquele pai mesmo sabendo que o seu filho não seria sensato e mesmo assim respeita o seu desejo de receber sua herança e de partir para o mundo.

Esta é a metáfora que Jesus usa para mostrar como é a nossa relação com Deus. Deus não aponta para nós nossas limitações e confia a nós o seu patrimônio e muitas vezes achamos que sabemos o que estamos fazendo até que nos damos conta de que não somos dignos de ser chamado de filho, mas que se o pai quiser pode nos tratar como empregados.

E a atitude do Pai é emblemática, o Pai podia ter esperado o filho chegar pedir desculpas, ou mesmo passar um sermão antes do filho dizer qualquer coisa e o que o pai fez? Ele viu o seu filho tomado pela miséria e  tomado de compaixão, o pai entendeu a dor de seu filho. O pai então, corre, lança-se sobre o pescoço do rapaz e o beija, O filho pede perdão, mas o pai não quer saber, o que importa é que ele voltou! O que importa é que o filho estava ali. E o pai manda seus servos escolher a melhor veste, por um anel no dedo e sandálias nos pés e mais manda que um novilho gordo recém alimentado seja morto e que uma grande festa seja dada pela volta do jovem.

O pai que outrora estava triste e angustiado pelo filho perdido agora exclama: ‘ ele estava morto (nekrós) e voltou a viver (anezesen) estava perdido (apololos) e foi encontrado (eurethé).’ Nekrós é geralmente usado em grego pra designar o corpo morto, o cadáver.

Enquanto que o verbo anazao significa praticamente ressuscitar, ou literalmente reviver porque a preposição “ana” indica o movimento de baixo para cima e o verbo zao que deu origem ao substantivo zoé significar dotado de vida, de movimento. Apololos significa perder, aniquilar, destruir. Estar perdido é se deixar destruir, corromper pelo pecado e ser encontrado diz respeito justamente ao contato por meio da experiência salvífica que o amor incondicional de Deus oferece a cada um de nós.

No entanto, a parábola não termina aqui. A lição sobre o perdão não terminou. Jesus acabou de Mostrar que Deus não mede esforços para acolher a todos indiferente do uso que é feito do seu patrimônio, mas isso não quer dizer que Deus seja permissivo e conivente com o pecado, pelo contrário, ele acolhe, e perdoa, mas espera de nós a conversão sincera e conhece o nosso intento de mudar ou não de vida.

O filho mais velho não estava em casa naquele momento ele retorna e ouve músicas e danças, chama um dos empregados e pergunta o que está acontecendo ali o empregado lhe responde: ‘É teu irmão que voltou e teu pai matou um novilho gordo, porque o recuperou com saúde.’ Então ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai então sai e suplica que o seu filho mais velho entre. O filho mais velho responde: ‘Há tantos anos que te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos. Contudo veio este teu filho, que devorou os teus bens com prostitutas e para ele matas um novilho gordo!’ O pai responde: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. “Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois este teu irmão estava morto (nekrós) e agora vive (ezesen) estava perdido (apololos) e foi encontrado (eurethé).”

A lição sobre o perdão só termina quando o pai mostra ao irmão mais velho que a volta do irmão mais novo merece ser comemorada. O filho mais velho não havia percebido que o tempo todo o patrimônio do seu pai era de fato seu também. De fato, ele sempre estava com o seu pai. É por estar sempre junto do pai que tudo que é do pai é do filho. Mas o filho mais velho ainda não tinha entendido que o patrimônio tinha como objetivo sustentar a vida e que ainda que o filho mais novo tivesse devorado os bens com prostitutas, o que o pai queria era ter seus dois filhos perto dele, juntos e com saúde.

 A volta do filho mais novo é a metáfora da nossa conversão. Jesus faz uso desta parábola para mostrar que o desejo de Deus é sempre o de estender o seu amor a todos. Principalmente aos pecadores. Os fariseus e os escribas representados na parábola pelo filho mais velho são chamados também à mesa da liturgia do perdão. São também chamados a celebrar  e viver o desejo  que todos os homens têm de se saciar de Deus.