domingo, 26 de abril de 2015

O discurso do bom pastor e a natureza da pastoral

O evangelho deste domingo nos ensina o que é pastoral e o que se espera da pratica pastoral.
João reconstrói o discurso do bom pastor e ao reconstruí-lo apresenta o paradigma que a vida cristã deve refletir enquanto experiência concreta de encontro com Deus.
Uma das coisas que chama a atenção na redação do texto joanino é o uso do verbo grego títhemi (dispor, colocar de pé) quem foi traduzido em português em várias edições da nossa bíblia por dar (no sentido de doar).
Porque esse verbo chama a atenção? porque títhemi é um verbo que expressa uma forma de organizar alguma coisa de pôr algo de uma maneira tal, essa é a acepção mais antiga do uso do verbo títhemi, daí o uso de títhemi como dispor (dispor no sentido de organizar), porém o evangelista joga com o uso do verbo e lhe emprega com um duplo sentido: primeiro, o sentido de se colocar em uma posição em relação as ovelhas, uma posição diferente da posição assumida pelo mercenário. Segundo, títhemi é dispor no sentido de abrir mão, de doar como geralmente aparece nas traduções correntes desse belíssimo texto joanino.
É desse modo, que João desenha para nós aquilo que entendemos por pastoral. O bom pastor que é Jesus que por meio do amor assume o cuidado radical para com suas ovelhas, por isso dispõe de si mesmo por elas, se coloca em um ato de deslocamento de si em função de suas ovelhas. A pastoral é o nome que damos a esse gesto de dispor de nós mesmos pelo outro, pode começar na Igreja, na escola, na família. Mas como Jesus também espalhou as sementes do reino a todos os lugares, Nós também somos convidados a dispondo de nós mesmos cuidar do reino cuidando dos irmãos necessitados. Fazer pastoral é um gesto de doação integral do que somos para os outros, só faz pastoral quem faz o gesto de entregar de tudo o que é. Há muitos miseráveis que precisam receber na forma da doação pastoral ao menos as migalhas do Cristo que caem como um pão na alma de tantos que ainda não tiveram a oportunidade de se encontrar com Jesus.
Não sejamos como o mercenário que ao ver o lobo foge e deixa as ovelhas perecerem. O bom pastor nos convida a ajudá-lo a cuidar do rebanho, não deixar que morram de sede, para isso levemos a palavra de Deus, que não morram de fome, para isso levemos o pão da vida. O bom pastor valoriza a vida das ovelhas, por isso devemos valorizar cada irmão que Deus nos confia. Deus nos convida a sermos pastores uns dos outros, cuidar é valorizar e o valor é estipulado pela nossa capacidade de dispor de nós mesmos pelos outros.
Pastoral é mais do que um grupo ou movimento é uma atitude concreta de amor que exige de nós uma entrega total pelo outro imitando o gesto de Jesus, o gesto de amor que ele fez por nós, Jesus o bom pastor e cordeiro, duas formas de se entregar para salvar pelo ato da entrega, doando o que tem de mais precioso, ele mesmo.
Brener Alexandre 26/04/2015

domingo, 5 de abril de 2015

A Páscoa do Senhor - Do sacrário vazio ao sepulcro vazio

Estamos chegando ao fim de mais uma semana santa, de mais uma páscoa do Senhor.
Começamos no Domingo de Ramos que recorda a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e com esta recordação também nos introduz no mistério pascal.
De fato, no Domingo de Ramos a liturgia como que nos introduz, tal como Jesus conduzido Jerusalém adentro, no mistério que será celebrado no Tríduo da Páscoa.

O Domingo de Ramos é como que uma introdução porque na forma de uma sinopse nos conduz para dentro da celebração do Tríduo Pascal. É provável que passe despercebido, mas o Domingo de Ramos possui duas ações litúrgicas distintas.

A primeira é a benção e procissão dos ramos na qual é feita leitura do Evangelho em que se conta sobre a entrada de Nosso Senhor na cidade Santa e somos convidados a repetir esse gesto caminhando e louvando Jesus como nosso rei como os judeus fizeram naquele domingo.

A segunda ação litúrgica é a santa missa na qual as leituras são justamente as leituras da paixão e morte de Jesus na Cruz na sexta-feira Santa. Vejam como o Domingo de Ramos nos introduz no mistério Pascal tanto no ato contemplativo da santa missa como na rememoração da aclamação e entrada de Jesus em Jerusalém. O Domingo de Ramos também nos recorda como somos volúveis, pois outrora aqueles que gritaram “Hosana” no domingo gritaram “Barrabás” e “Crucifica-o” na sexta feira e nós também tantas vezes bendizemos a Deus e outras vezes nos queixamos dele ou com ele. Assim o Domingo de Ramos exerce um papel análogo ao de uma introdução de um livro, pois a introdução de um livro tem como finalidade maior apresentar o conteúdo programático da obra o método usado pelo autor para coletar as informações e em alguns casos uma sinopse esquemática da obra para que não nos percamos ao longo da leitura. O domingo de ramos também apresenta essa sinopse esquemática prefigurada nas duas ações litúrgicas que nos dá o método enquanto caminho que percorreremos assumindo diversos papéis e pontos de vista que nos permite meditar e experimentar Deus na santa liturgia da páscoa e assim apresenta para nós o conteúdo programático da semana santa e de tudo o que será vivido no Tríduo Pascal.

Mas quero chamar atenção justamente para o Tríduo esses três dias que compõem uma grande celebração da Fé Cristã Católica e que começa com a missa da Instituição da Eucaristia e com o lava pés dois momentos especiais, pois a Instituição da Eucaristia é também a instituição da nova aliança em Cristo, além de ser a Eucaristia o memorial perpétuo da paixão de nosso Senhor. As leituras remontam o lava pés gesto de Jesus que nos instrui para o serviço dos irmãos e também ao mandamento maior do Evangelho, o de amarmos uns aos outros tal qual Jesus nos amou, esse amor do qual já falei em outro lugar (no meu texto Ágape) nos tira do centro sem que saiamos do lugar, pois, o centro é sempre o Cristo visto no irmão. A missa termina com uma vigília em torno de Jesus no santíssimo sacramento atendendo ao pedido que ele fez ao seus discípulos “orai e vigiai” e no qual meditamos e acompanhamos a sua angustia pouco antes de sua prisão e morte.

Nesse momento o sacrário que é o lugar onde depositamos a hóstia salutar fica vazio e permanecerá assim até a grande vigília de Sábado. A sexta feira amanhece silenciosa e começa com a via sacra. Depois de acompanharmos a angustia de Jesus contemplamos a sua via dolorosa acompanhando passo a passo, estação a estação cada instante do sofrimento que Jesus passou para pagar com o preço do seu sangue a nossa Salvação.
É na sexta feira que reconhecemos que a Cruz passa a ser para nós um sinal da graça de Deus, a cruz um terrível instrumento criado como ferramenta de tortura e símbolo para os judeus de maldição se torna para nós um sinal do amor infinito de Deus. O sacrário está aberto, a luz que indica que Jesus está lá presente e vivo foi apagada, “Levaram o nosso Senhor!” Jesus morre na cruz e se sente sozinho, desamparado. Os discípulos que o seguiam sentem o fracasso com a morte de Jesus sentem-se como o Templo sem o Santo dos Santos e nós também nessa sexta feira silenciosa como um sacrário aberto sentimos que Deus nos foi tirado.

A vigília do Sábado começa a noite somos mergulhados nas trevas, pois a luz do mundo foi apagada na cruz, a Igreja tomada pela escuridão acolhe o círio pascal e o fogo novo juntamente com muitas velas acesas, nós também somos chamados pelo batismo a ser luz do mundo e sal da terra. Na grande vigília prevalece a esperança acesa pela memória das inúmeras vezes em que Deus salvou o seu povo, da Criação até a gloriosa ressurreição de Jesus.

A vigília transforma o coração tomado pelas trevas do desespero em um sacrário brilhante e iluminado pela Luz do Cristo Ressuscitado. O sacrário vazio foi preenchido novamente com o pão do céu, o verdadeiro maná, iluminado pela verdadeira luz que já não mais poderá ser apagada pela morte. Agora é o Sepulcro que está vazio, era preciso que o sepulcro fosse esvaziado para que o sacrário pudesse tornar a ficar cheio, assim como o nosso coração que transborda de alegria pascal com a boa notícia da ressurreição de Jesus. Esse mesmo Cristo que como diz São Paulo se esvazia a si mesmo na Cruz por nós, esvazia o sepulcro para que a vida triunfe sobre a morte e a alegria verdadeira, sobre a tristeza momentânea e a Luz verdadeira do “sol que vem do alto nos visitar” sobre a noite escura que irrompe em nossos corações quando acossados pela falta de esperança.

Enfim, Cristo Ressuscitou, Aleluia! E passamos do sacrário vazio ao Sepulcro vazio mais uma vez na certeza de que ele vive e reina para sempre a direita de Deus.
Feliz páscoa do Senhor Jesus a todos e que a sua paz, a verdadeira paz esteja sempre com todos vocês!


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ágape

Estava pensando nesta manhã de quinta-feira santa sobre o ágape que os cristãos latinos chamavam caritatis, pensando no paradoxo que essa forma de amor exprime quando dispersa o que deve permanecer unido e une o que está aparentemente disperso.
Falo por experiência própria, afinal, escolhi me afastar da minha comunidade de fé para não “fechar as portas do reino” (MT 23,13) porque não queria que o meu zelo fosse pedra de tropeço para os outros.  Do mesmo modo, que nos afastamos de alguém que amamos para não escandalizá-la com o nosso afeto, posto que às vezes esse afeto mesmo bonito nos é causa de queda.

A fé cristã é um paradoxo maravilhoso, suas exigências transbordam do mistério de Deus e só pode ser perscrutado porque quem não se contenta em apenas molhar os pés, mas que de fato deseja ir “para as águas mais profundas”.  De fato, essa forma de amor especial que coloca o outro no centro valorizando-o e que exige de nós que deixemos de lado nossos projetos particulares para se colocar à serviço ainda que esse serviço seja à renúncia de nossas ambições mais corriqueiras como a fama e o prestígio na vida social. Com efeito, esse amor que São Paulo apresenta muito bem como aquela que: “é paciente, prestativa, não possui soberba e não procura o próprio interesse, não se irrita e não guarda ressentimento; e ainda não se contenta com a injustiça e se agrada da verdade.” (1Cor 13, 4-6) Ora, somos imperfeitos na caridade, nesse abster-se de nós mesmos para se pôr à serviço do outro. Mas somos chamados constantemente a procurar a perfeição na caridade, pois, a caridade é graça que abunda do mistério de Deus.

Somos convidados ao silêncio obsequioso que evita o julgamento dos irmãos (e peço perdão pelas vezes que julguei quando deveria me calar).
Somos convidados a se afastar quando já não podemos contribuir para o crescimento dos irmãos (e peço perdão por meu fracasso quando Deus confiou seus talentos e eu não fui capaz de dobrá-los).
Somos convidados perdoar a covardia e falta de sinceridade dos irmãos que não nos compreenderam, dos irmãos que nos julgaram e que Deus confiou a nós. (e peço perdão pelas vezes que fui covarde e quando optei pela omissão seja para me proteger seja para proteger os outros e ainda peço perdão pela falta de paciência e pelo juízo precipitado para com os meus irmãos).
Somos convidados a dispersos nos unir e unidos nos dispersarmos para que a palavra de Deus feita semente frutifique como é da sua vontade. Que cada um semeie com os dons que Deus lhe deu ofertando a si mesmo e doando-se como o Cristo se doou e continua a se doar por nós.

Reconheço que muitas vezes deixo a desejar como Cristão, que muitas vezes falho com o evangelho, e por isso, peço a Deus que me ensine a ser mais caridoso servindo aos irmãos com inteligência (dom que me foi dado), com coragem (força que me impele a agir) e justiça (pois para Deus a caridade e a justiça se encontram abraçadas).

Não sou parte de vós, mas sou um como vós. Não somos iguais, mas somos semelhantes.

O paradoxo da caridade reside no mistério da paixão de modo peculiar porque Deus sendo Todo poderoso não usou de força para salvar, mas usou de amor: paciente e prestativo que tudo desculpa e tudo suporta para nos salvar e esperou de nós uma resposta livre e sincera de acolhimento desse amor que nos tira do centro sem nos deslocar dele para que “amassemos uns aos outros como ele nos amou” (Jo 13,34).
Não nos esqueçamos do que nos une a videira, do qual somos parte e da unidade à que somos chamados símbolo perpétuo da nossa fé.






quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal do Senhor: Do mistério da encarnação



Sabemos que o dia 25 de Dezembro é uma data simbólica e que não é a data histórica do nascimento de Jesus.
No entanto, o verdadeiro sentido do natal do Senhor não está na data em si, mas no significado que o nascimento de Jesus tem para nós, cristãos, tendo em mente as promessas de Deus feitas ao povo judeu.
Quando nos voltamos para os evangelhos, é possível, perceber como Matheus, Lucas e João abordam as circunstâncias do nascimento ou como traduzem o mistério da encarnação do Senhor.
Celebramos no natal o cumprimento de uma promessa; promessa feita ao povo escolhido e que pela misericórdia de Deus se estendeu a toda humanidade.
Quando celebramos o natal do Senhor estamos comemorando o desejo de Deus de ficar bem próximo de nós, como é dito na liturgia: “Vivendo conosco no Cristo e falando conosco por meio dele”. Com efeito, Jesus, que em hebraico significa Deus salva é também Emanuel: Deus conosco.
O mistério da encarnação consiste então, no desejo de Deus de salvar e de entrar em nossas vidas.
Como foi cantado por Zacarias: “Graças ao misericordioso coração de nosso Deus, pelo qual nos visita o astro nascente vindo do alto, para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, para guiar nossos passos no caminho da paz.” (Lc 1,78-79)

Jesus é a fonte de luz que ilumina toda criatura, a luz verdadeira (Jo 1,9) fonte da verdadeira vida.

O mistério da encarnação deve ser compreendido à luz do sentido mesmo do nascimento de Jesus, uma compreensão que nunca se esgota, por ser mistério, mas sempre se renova como o nascer do sol.
Meditar o mistério natalino é, portanto, compreender a grandeza de sentido que tem o nascimento de Jesus, “a palavra que se fez carne e que arma sua tenda entre nós” (Jo 1,14) Jesus é Deus que se faz peregrino como nós, quer revelar o verdadeiro sentido da vida se fazendo caminho para a nossa trajetória rumo a Jerusalém celeste, é a verdade que almeja ser comunicada a toda humanidade.
O Deus peregrino “luz da luz” armou sua tenda entre nós para revelar no seu rosto humano a sua face divina e santa para que sejamos santos como ele é santo e possamos gozar a verdadeira felicidade.

Feliz Natal!


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Homenagem a Santo Antônio de Pádua ou Lisboa

Dia 13 de Junho a Igreja católica traz a memória litúrgica de Santo Antônio de Pádua ou Lisboa.
Nascido em 15 de Agosto de1195 e falecido em 13 de Junho de 1231 com apenas 36 anos de idade.

Minha homenagem ao santo franciscano será postar aqui o famoso responsório de Santo Antônio composto segundo a tradição por São Boaventura grande santo e filósofo e teológo que também floresceu junto a fraternidade de São Francisco de Assis. Postarei o texto latino e a tradução junto da "oração eficaz".
Deixarei também a bibliografia de uma trezena do santo para aqueles que desejam fazer a meditação da sua vida e assim imitar frade Antônio no seguindo do Senhor.

Segue o texto:

Si quaeris mirácula,
Mors, error calámitas,
Daemom lepra fugiunt,
Aegri surgunt sani.

Cedunt mare, víncula,
Membra resque pérditas
Petunt et accípiunt
Júvenes et cani.

Péreunt perícula,
Cessat et necéssitas,
Narrent hi qui séntiunt,
Dicant Paduáni.

Tradução:

Se milagres tu procuras
pede-os logo a Santo Antônio.
Fogem dele as desventuras,
erros, males e o demônio.

Torna manso o iroso mar,
Da prisão quebra as correntes,
Bens perdidos faz achar
E dá saúde aos doentes.

Aflições, perigos, cedem
Pela sua intercessão;
Dons recebe se lhos pedem
O mancebo e o ancião.

Em qualquer necessidade
Presta auxílios soberanos;
De sua alta caridade
Fale a voz dos paduanos.

Glória seja dada ao Pai.
Glória ao Filho, nosso bem,
Glória ao Espírito Santo
Pelos séculos.
Amém!

Oração eficaz:

Lembrai-vos, ó glorioso Santo Antônio, amigo do menino Jesus, filho querido de Maria Imaculada, de que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido a vós e implorado a vossa proteção tenha sido por vós abandonado. Animado de igual confiança, venho a vós, ó fiel consolador dos aflitos, gemendo sob o peso dos meus pecados; e, embora pecador; ouso aparecer diante de vós. Não rejeiteis, pois, a minha súplica, vós que sois tão poderoso junto ao coração de Jesus, mas escutai-a favoravelmente e dignai-vos atendê-la.

Amém!

domingo, 31 de março de 2013

Catequese de São Paulo aos Coríntios 1Cor 15,1.12-19


"Lembro- vos, irmãos, o evangelho que vos anunciei, que recebestes, no qual permaneceis firmes, e pelo qual sois salvos, se o guardais como vo-lo anunciei; doutro modo, teríeis acreditado em vão. (1) Ora, se se proclama que Cristo Ressucitou dos mortos (literalmente "levantou-se dentre os mortos" o verbo que normalmete usado nos textos neo testamentário para ressureição é "Anastásis" que significa literalmente levantar, subir. A escatologia judaica nos remete o fato de que quando morremos descemos ao Sheol que seria a mansão dos mortos como nós proferimos no Credo, portanto ressucitar significa literalmente sair do sheol, isto é, subir da região dos mortos para a vida. Outro verbo correlato e sinônimo de anastásis é o verbo que significa levantar no sentido de despertar como quando acordamos do sono, pois no Sheol as almas dormem. por isso São Paulo se refere ao mortos como aqueles que adormeceram), como podem alguns dentre vós dizer que não há ressureição dos mortos? (12) Se não há ressureição dos mortos, também Cristo não ressucitou. (13) E, se Cristo não ressucitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé.(14) Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressucitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. (15) Pois, se os mortos não ressucitam, também Cristo não ressuscitou.(16) E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais em vossos pecados. (17) Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo, estão perdidos. (18) Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. (19)” (São Paulo aos Coríntios durante o pentecostes. Cf. I Cor 15,1.12-19.
Feliz Páscoa a Todos que a alegria do Ressucitado seja a nossa Alegria que jamais nos esqueçamos do fundamento da nossa Fé!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Tentação no deserto: o exercício espiritual do cristianismo primitivo para os dias atuais



No primeiro domingo da quaresma a Igreja nos convida a meditar a tentação de Jesus no deserto.
A tentação no deserto é a imagem escolhida pela Igreja para apresentar o ciclo quaresmal, porque assim como Jesus guiado pelo Espírito Santo permanece no deserto durante quarenta dias para então iniciar seu ministério profético anunciando a boa nova de Deus. A Igreja se recolhe penitente por quarenta dias para dignamente celebrar a páscoa.

Entretanto, o meu enfoque não é tanto sobre como a tentação no deserto pintado pelos evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas se tornaram o ícone da quaresma para a Igreja.
E sim a lição catequética que estes escritores sagrados nos deixaram.
Uma lição que nos ensina antropologia teológica, isto é, nos revela a natureza humana aos olhos da fé e uma ética teológica porque nos educa a agir bem conforme a fé.
Estes são os pontos que quero analisar em cada tentação proposta pelo demônio no Evangelho de Lucas e cada resposta dada por Jesus analisando o que é ensinado a cada momento.

O texto da tentação no deserto se encontra em Lc 4, 1-13 e em linhas gerais Lucas nos conta que Jesus pleno do Espírito Santo é guiado para o deserto e que lá em jejum por quarenta dias ele é tentado pelo diabo.

Vamos observar duas coisas, primeiro o lugar, um deserto, eremós em grego, o lugar vazio, a metáfora da solidão do abandono de si a si mesmo. Segundo o diabo que enquanto personificação do mal é também a causa da ruptura com a fé. Entre o deserto e o diabo há a tentação o verbo substantivado pelo evangelista é peirázo que revela que a tentação é uma experimentação, no sentido de testar, por a prova alguma coisa ou alguém.

Do ponto de vista antropológico a tentação no deserto nos ensina que a natureza humana é sujeita a alguns tópicos fundamentais como: a satisfação de desejos, vaidade e exercício do poder sobre os outros e vaidade e a pretensão de se colocar no lugar de Deus.
E do ponto de vista ético a tentação no deserto no ensina que a excelência moral é reflexo do nosso aperfeiçoamento em contato com o sagrado, descobrindo seus mistérios e neles adentrando redescobrindo a nossa relação com o mundo, conosco mesmo e com Deus.

Segundo Lucas durante quarenta dias Jesus não comeu nada e teve fome (Lc 4,2) e então o diabo lhe disse: “Se és o filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão.” (Lc 4,3)
Jesus que como professamos no símbolo dos apóstolos niceno-constantinopolitano: “é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, gerado não criado consubstancial ao Pai.”

Isto quer dizer que Jesus é Deus em tudo e também é Homem em tudo, experimentou a natureza humana e como diz São Paulo: “à nossa semelhança, ele foi provado em tudo, sem todavia pecar.” (Hb 4,15) ou seja, Jesus enquanto homem esteve sujeito a tudo o que o homem é sujeito, desejos físicos, raiva, tristeza e naquele momento com fome e com sede no deserto o diabo o põe a prova dizendo: “ você não é o filho de Deus? Então se você está com fome, transforme estas pedras em pão e se satisfaça!” Jesus é tentado a satisfazer suas vontades e colocar se a serviço de si mesmo, de se entregar as suas necessidades fundamentais, o ser humano tem fome e sede que transcende o comer e o beber.

A resposta de Jesus a proposta diabólica foi: “Está escrito: não só de pão vive o homem” (Lc 4,4)
A Resposta de Jesus não é só a resposta que o homem de fé dá para as adversidades por buscar na providência divina o consolo para suportar a tribulação que a fome ou a sede pode fazer qualquer um experimentar, mas é a resposta do homem de fé que conforma sua vontade a vontade de Deus, note-se que não é um conformar que anula a liberdade, mas uma adesão consciente de que a vida é mais que a satisfação de necessidades momentâneas.

O diabo não desiste e o leva para o alto de um monte e lhe mostra todos os reinos da terra cheios de poder e glória e os oferece a Jesus em troca de adoração (Lc 4, 5-7).
A idolatria sempre foi um problema para o povo de Deus e a idolatria nasce da necessidade humana de se autosatisfazer. O desejo por poder e glória é a falsa necessidade humana de alimentar a vaidade o culto ao diabo é um culto ao próprio homem. É isto que significa diabo, ruptura, cisão, divisão, confusão.
O símbolo, por outro lado, é aquilo que une. Veja quando citei acima símbolo da nossa fé, isto é, a profissão de fé que nos une enquanto católicos.

O diabólico, portanto, é o que nos separa de Deus. Por isso Jesus diz: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.” (MT 6,24)
O evangelista ao falar da riqueza está falando do deus da riqueza “Mamôn”.
Jesus responde: “Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto” (Lc 4,8). A recusa de Jesus a oferta feita pelo diabo é o reconhecimento de que a verdadeira natureza humana só se realiza na perfeição de Deus seguindo o raciocínio de Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em ti.” (AGOSTINHO, Confissões I, 1.)

Enquanto criado “a imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26) devemos refletir a bondade do Criador por meio da inteligência que é a marca da sua bondade.
A ação criadora de Deus é a manifestação concreta da sua bondade, e a nossa resposta a bondade de Deus é procurarmos ser tão bons quanto ele, o evangelista exorta: “sede perfeitos, assim como vosso Pai Celeste é perfeito.” (MT 5,48)
É possível notar que há um princípio ético em questão cujo fundamento está na concepção de ser humano presente na cultura judaico-cristã. Uma ética das virtudes que concebe o bem como resposta ao projeto salvifíco do nosso Criador.

Por fim a última tentação, tendo Jesus recusado as investidas do diabo, este (o diabo) o transporta para o alto do templo de Jerusalém e disse-lhe: “Se és o Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem aos teus anjos a teu respeito, para que te guardem. E ainda: E eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.” (Lc4, 9-11)


Como eu dizia acima as tentações estão inter-relacionadas e revelam a natureza humana e a sua relação com o mundo e com o próprio Deus.
Nesta tentação o diabo tenta fazer com que Jesus coloque a providência divina e a ação de Deus à prova, mas como veremos é bem mais que esta primeira impressão pode nos causar.

Veja que a primeira tentação tenta fazer com que Jesus procure satisfazer sua fome a qualquer custo, a primeira tentação revela que o homem é um ser que deseja e que é dotado de vontade. E que a vontade do homem deve ser orientada pela inteligência, esta é reflexo da inteligência de Deus que deu ordem as leis da natureza.
E a resposta de Jesus é justamente a de que não é a vontade desorientada que garante existência e vida plena ao homem.

Na segunda tentação o diabo oferece poder e tenta despertar a ganância e vaidade de Jesus oferecendo os reinos do mundo todo se ele prestasse culto a ele.
Esta revela que o desejo desorientado pela inteligência gera pensamentos irracionais, ilusões, raciocínios equivocados sobre o modo de conceber a nossa vida.

A segunda tentação nos ensina que o verdadeiro poder vem do serviço ao outro.
E não da vaidade de controlar o mundo e as pessoas a minha volta.
A resposta de Jesus é a de que reconhecendo Deus como o único digno de culto reconhecemos que todos são filhos que se colocam à serviço para a construção de um mundo melhor compreendendo que cultuar a nossa vaidade e a nossa ambição alimenta a desigualdade  e oprime o povo de Deus.

A última tentação, a terceira. Quer por Deus à prova. E mais do que por Deus à prova, quer colocar Deus ao nosso serviço invertendo a nossa relação com ele.
Todos os discursos de teologia da prosperidade e da retribuição são formas de nos atirar do pináculo do templo esperando ser amparado por anjos.
Nesta tentação o diabo quer nos fazer pensar que Deus é quem deve nos servir e não o contrário, que ele deve se moldar à nossa vontade.
E a resposta de Jesus é magnífica: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Lc 4,12)

“Não tentarás o Senhor teu Deus” é a resposta genérica que a sagrada escritura nos dá querendo nos dizer que somos muito pequenos e às vezes muito pretensiosos para achar que Deus tem de satisfazer todos os nossos caprichos.
São Paulo nos lembra: “Ele, estando na forma de Deus não usou de seu direito de ser tratado como deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como um homem abaixou-se, tornando-se obediente até a morte, à morte sobre uma cruz.” (Fl 2, 6-8)

A passagem da Tentação no deserto nos apresenta algumas disposições inerentes à natureza humana que precisam ser educadas para que o exercício do bem e a prática da justiça sejam possíveis.
A meditação da tentação de Jesus no deserto é parte dos grandes exercícios espirituais do cristianismo desde o seu início.

Como já foi falado entre o deserto e o diabo, estando a sós, em um momento de retiro pessoal cara a cara com quem somos e o que somos enfrentamos as tentações isto é todas as vontades desorientadas que nos levam a ruptura com Deus.

A meditação das tentações a forma encontrada pelos  evangelistas para ensinar aos primeiros cristãos a educar a vontade e a fazer uso da inteligência, isto é, da razão para o exercício das virtudes cristãs.
É também o exercício místico com o qual o homem cristão tem a experiência do abandono em si mesmo para descobrir o outro e Deus como o outro maior.